sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna: "Há uma certa hora"



HÁ UMA CERTA HORA


Há uma certa hora
em que a casa é um navio
prestes a desatar-se do cais
da noite para o mar do dia.


É que amanhece. E as paredes
e objetos do quarto, os quadros
cadeiras e cortinas (paradas embora)
parecem ondear na enseada da sala.


Os corpos e lençóis se movem
como velas num lento ritual
e as pálpebras e os músculos
retomam a memória 
ancorada na véspera.


Há uma certa hora
em que o dia iniciado
ainda não se inaugurou.
Tudo é possibilidade.
As notícias ainda não o mutilaram.
Tudo é um silêncio promissor.


É hora de entre espelhos
cremes e quimeras
escolher a roupa
com que vestir a manhã
hora de recolher o afeto enrodilhado
do cão na cama ou na poltrona
abrir o jornal e ver o sangue
da véspera e a esperança
nas entrelinhas das colunas
que sustentam
as perplexidades
                de mais um dia.


Não se foi (ainda) ao escritório
ao mercado ao banco à escola
O dia é um veículo estacionado
na garagem ou na esquina.
O terrorista não pôs (ainda)
em marcha a sua sanha
o traficante não repassou
a droga, e engatilhada
repousa (ainda)
a bala perdida.
A engrenagem da bolsa
- do pânico à euforia -
(ainda) não nos triturou.


O dia é um alvo
à espera do atirador.
Ainda não se teve
a tonteira o enfarto
o contrato não foi rompido
nada sabemos daquele telefonema
do recém-nascido do atropelado
da mulher que agora beija o marido
mas às quatro da tarde, feliz,
gozará com o amante
em completa doação.


Há uma hora em que o dia
ainda não se inaugurou
- momento absoluto
que antecede tudo.


De repente, a engrenagem
se movimenta o barco
se faz ao mar
desfaz-se a calmaria.


Só há duas alternativas:
- naufrágio ou travessia.