sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Labirinto

Le Labyrinth by Salvador Dalí 


onde perder a lembrança do encontro?
numa caixa chamada memória?
mas não posso lançá-la ao mar
poderia eu perdê-la
em algum outro lugar?
disperso as letras do teu nome
num labirinto particular
de ruas, avenidas
pontes imemoriais
me perco
mas inevitavelmente
te encontro
em todas as saídas.

Ane Montarroyos

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Caetano Veloso & Rita Lee


SAMPA

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa




HOMEM VINHO

Homem vinho
O tempo te lapida
Hoje ferida, amanhã cicatriz
Feliz de quem sabe cantar

Brindar sozinho
Tua fina estampa
De Sampa o mais completo tradutor
Poeta prestidigitador
Homem vinho

Voz de veludo Veloso tem
Tem dengo dengoso tem
Sangue de bamba
Pano pra manga

Fan Club na mídia tem
Tem ficha na polícia tem
Pecha de gênio
Dendê no milênio

Swing neguinha tem
Tem fora as asinhas tem
Karma de mestre
Cabra da peste
Leitmotiv como ninguém

O que é que Caetano tem?
Que nem todo baiano tem
Ele é o coringa e o rei
Meu eterno Dorian Gray


sábado, 10 de dezembro de 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

Walt Whitman

Café Mafalda, Curitiba


SONG OF MYSELF


3
I have heard what the talkers were talking, the talk of the
beginning and the end,
But I do not talk of the beginning or the end.

There was never any more inception than there is now,
Nor any more youth or age than there is now,
And will never be any more perfection than there is now,
Nor any more heaven or hell than there is now.

Urge and urge and urge,
Always the procreant urge of the world.

Out of the dimness opposite equals advance, always substance and
increase, always sex,
Always a knit of identity, always distinction, always a breed of
life.
To elaborate is no avail, learn'd and unlearn'd feel that it is so.

Sure as the most certain sure, plumb in the uprights, well
entretied, braced in the beams,
Stout as a horse, affectionate, haughty, electrical,
I and this mystery here we stand.

Clear and sweet is my soul, and clear and sweet is all that is not
my soul.

Lack one lacks both, and the unseen is proved by the seen,
Till that becomes unseen and receives proof in its turn.

Showing the best and dividing it from the worst age vexes age,
Knowing the perfect fitness and equanimity of things, while they
discuss I am silent, and go bathe and admire myself.

Welcome is every organ and attribute of me, and of any man hearty
and clean,
Not an inch nor a particle of an inch is vile, and none shall be
less familiar than the rest.

I am satisfied - I see, dance, laugh, sing;
As the hugging and loving bed-fellow sleeps at my side through the
night, and withdraws at the peep of the day with stealthy
tread,
Leaving me baskets cover'd with white towels swelling the house with
their plenty,
Shall I postpone my acceptation and realization and scream at my
eyes,
That they turn from gazing after and down the road,
And forthwith cipher and show me to a cent,
Exactly the value of one and exactly the value of two, and which is
ahead?


CANÇÃO DE MIM MESMO

3
Ouvi de que falavam aqueles que falavam, ouvi o que diziam acerca do princípio e do fim,
Mas eu não falo do princípio nem do fim.

Nunca houve mais princípio do que agora,
Nem mais juventude ou velhice do que agora,
E nunca haverá mais perfeição do que agora,
Nem mais céu ou inferno do que agora.

Ímpeto, ímpeto, ímpeto,
Sempre o ímpeto procriador do mundo.

Das trevas avançam os opostos iguais, sempre a matéria e o incremento, o sexo sempre,
Sempre a malha da identidade, sempre a diferença, sempre a progenitura da vida.

É inútil pormenorizar, os cultos e incultos sabem que assim é.

Mais do que certo, de pé e firme, muito firme, entalhado nas vigas,
Possante como um cavalo, afetuoso, altivo, elétrico,
Aqui estamos, eu e este mistério.

Clara e suave é minha alma, claro e suave tudo o que não é minha alma.

Faltando um, faltam ambos, e o visível é prova do invisível,
Até que se torne invisível e por sua vez seja provado.

Mostrando o melhor e separando-o, a idade afronta a idade,
Conhecendo a perfeita adequação e a justiça das coisas, enquanto discutem fico
em silêncio, vou tomar banho e contemplar-me.

Bem-vindos são todos os meus órgãos e atributos, e os de cada homem puro e são,
Neles não há nada de vil, e nenhum deve ser menos familiar que o outro.

Estou satisfeito - vejo, danço, rio, canto;
Enquanto o meu amado companheiro de leito dorme abraçado a mim pela noite afora, e furtivamente parte ao romper do dia,
Deixando-me cestos cobertos com toalhas brancas que enchem toda a casa,
Deverei adiar a minha aceitação, a minha realização, deverei gritar aos meus olhos,
Que deixem de olhar o caminho,
E de imediato decifrem e me revelem até ao pormenor,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e qual vale mais?


sábado, 5 de novembro de 2011

Radiodocumentário



Em abril do ano passado, concedi uma entrevista (via Skype) a Mariane Bovoloni, aluna de jornalismo da Unesp. Conversamos sobre o livro O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. No artigo "Memória: a reconstrução das lembranças de Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio", fiz uma breve análise desse romance. Portanto, pude contribuir com o radiodocumentário “Os 5 livros da juventude”: O Diário de Anne Frank; O Apanhador no Campo de Centeio; On the RoadLaranja Mecânica; Christiane F., 13 Anos, Drogada, Prostituída.







Por Beatriz Spinelli, Isabel Namba, Katia Kishi, Laura Luz e Mariane Bovoloni, alunas da Unesp.


Produção: Mariane Bovoloni. Revisão de texto: Isabel Namba. Locução: Giovani Vieira, Mariane Bovoloni e Paula Monezzi. Roteiros de: Beatriz Spinelli, Isabel Namba, Katia Kishi, Laura Luz e Mariane Bovoloni. Produzido no primeiro semestre de 2010.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fim

  O fim é necessário, disse ela. 
–  Sim, mas qual é a linha tênue entre a vida e a morte de um sentimento? retrucou ele.
– Pergunta difícil... A morte de um sentimento é, para mim, uma incógnita. Nós podemos pressenti-la, pois, assim como o corpo, o sentimento também adoece. Porém, muitas vezes, não há remédio. Então, não podemos saber quando a indesejada virá, respondeu. 
– O problema é que ela sempre vem... Impiedosa, matou a minha paixão. Por isso, questiono-me sobre o amor: será possível amar novamente? perguntou.
– Talvez. Acho que o amor antigo ainda pode ser a melhor opção. Como escreveu Drummond, "o amor antigo vive de si mesmo", respondeu ele.
–  Não sei... Acho que, como no verso de Fernando Pessoa, o "meu coração é um balde despejado". Eu também invoco a mim mesma e não encontro nada. Nada além da angústia do fim, retorquiu ela, encerrando a conversa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

MUNDO GRANDE

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livra-
                                                                                       [rias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao 
                                                                                  [suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! nós te criaremos.

sábado, 29 de outubro de 2011

Obrigada!

Depois de tanto tempo ausente, eis-me aqui para agradecer a todos os meus amigos e leitores. O LACUNAS DO TEMPO está entre os 100 blogs classificados para o 2º turno do Prêmio TOPBLOG 2011, na categoria Literatura. Uma grata surpresa, queridos. Para comemorar, um poema com a cara da madrugada: 

o que fazer quando 
até a esperança
naufraga?
não há trilha 
ou caminho
no horizonte
dos meus olhos
não, nada...
lugares, pessoas, bares
todos iguais
inclusive eu
nos lugares
entre as pessoas
nos bares

Ane Montarroyos

domingo, 11 de setembro de 2011

Fernando Pessoa

HOJE QUE A TARDE É CALMA 
01.08.1931

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo, 
E a noite chega sem que eu saiba bem, 
Quero considerar-me e ver aquilo 
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo 
Que fui quem foi aquilo em torno meu, 
Salvo o que o vago e incógnito desejo 
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo 
Minha atenção sobre quem fui de mim, 
E nada de verdade em mim albergo 
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem, 
Segui por dois caminhos par a par 
Fui como o mundo, parte da paisagem; 
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço 
Que sou diverso no que informe estou. 
No meu próprio caminho me atravesso. 
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível, 
Vários trazidos de outros mundos, e 
No mesmo ponto espacial sensível 
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento 
Podendo conceber, bem pode ser, 
Um dilatado e múrmuro momento, 
De tempos-seres de quem sou o viver?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cairo Trindade



SARTREANA
ou o desastre de sartre

solidão
não faz bem
pra ninguém

se o inferno
são os outros
o paraíso também

[Cairo Trindade]

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Fernando Pessoa

CANÇÃO

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

sábado, 9 de abril de 2011


Enquanto ela caminhava
a lua minguante
a observava
o Capibaribe dançava
e o Recife a acompanhava
com olhos de sexta-feira
em brasa

Ane Montarroyos



segunda-feira, 14 de março de 2011

Dia Nacional da Poesia

Olá, queridos! Eu não abandonei o blog, juro! Mas a minha rotina mudou completamente e, por isso, além do tempo, a inspiração também criou asas. Desculpem a ausência! Tentarei voltar ao ritmo anterior. :) E hoje, especialmente, a poesia me chama. Salve o Dia Nacional da Poesia!


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.



Cecília Meireles

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ah, o Tempo...

Este belo poema é de autoria do @VictorJimmy: "Fotógrafo, Designer, Escritor, Roteirista, Diretor de arte, Baterista, Violonista e Humano nas horas vagas".

MENDIGO DO TEMPO

Eu sou mendigo do tempo
Serve qualquer coisa
Segundos, minutos, horas
Eu preciso de tempo

Imploro qualquer mixaria
Mas preciso de tempo pra viver
Os relógios me cercam
Me cobram o que devo

Eu sou mendigo do tempo
Com meu relógio de pulso
Meu tempo na veia
Essa droga que sou viciado 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Versos & Vícios

Próximo à pracinha do terminal de ônibus da linha CDU/B.Viagem/Caxangá; ou do CTG da Universidade Federal de Pernambuco, Várzea.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Confrontos e Confluências

Em sua coluna Confrontos e Confluências, no blog Poetas de Marte, o querido Fred Caju me presenteou com esta bela análise:

            Em plena semana de divulgação do e-book Os Teimosos e a Poesia do Contra, trago para o palco da coluna Confrontos e Confluências, Ane Montarroyos. Mas Caju a idéia da coluna não é pôr os holofotes sobre dois poetas? Sim, nobreza, mas a coluna é minha e eu escrevo o que bem entender nela... Brincadeira, pessoal! Vocês verão que faz muito sentido pôr a teimosa com a cara e a coragem no blog.
          E além do mais não será a primeira vez que apenas uma pessoa estrelaria na coluna sozinha. Já aconteceu antes, e o que é pior: o poeta escolhido foi o próprio autor dessas linhas! Mas comigo é assim mesmo: nepotismo é coisa pouca para mim! Se a desculpa, digo, justificativa dada na primeira vez que pus apenas um poeta na coluna foi o método dialético contido no poema, dessa vez o buraco vai ser mais embaixo.
          Na leitura da sessão NO MEIO DO CAMINHO TEM UMA FLOR, os leitores que se propuseram a baixar o e-book encontram toda a delicadeza da ruiva, em poemas onde o que há de mais concreto são flores e sobram sentimentos e delicadeza. Há dois poemas que quero adbuzir ao blog para compor a coluna nessa quinta-feira:


SOL ESCARLATE

A muralha gélida
construída outrora em minh'alma
hoje, dissolve-se em flocos de neve
derretidos pelo sol escarlate de dezembro
inundando o jardim quase morto em mim
donde, agora, nascem lírios de alegria
girassóis de paixão
e violetas perfumadas
de suave saudade.


GIRASSOL


gira flor
nasce sol
reluz jardim.


          Viram só, como faz sentido Ane está sozina na coluna? Não?! Bom, na minha humilde leitura observo algo bem interessante: o sol escarlate faz nascer os girassóis de paixão, só que os próprios girassóis fazem o sol nascer para reluzir o jardim. Isso, simpatia, pode ser adjetivado como o Eterno Retorno nietzscheano... Ou não... Opinões?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Onde está a saída?

PORTAS E PORTÕES

Do outro lado
Teimei
Abri o portão
Escorreguei das nuvens
Desci no horizonte
Quebrei todos os dentes
E os dedos
Parei lá em ‘caixa-prego’
Passei a fabricar portas
Agora todos querem uma saída.


Marcone Santos (Jimmy) em Os Teimosos e a Poesia do Contra

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Carros & Bois

CARRO DE BOI

Um ônibus no Recife é um carro de boi,
E cada boi dependendo do transporte
Tem preço: R$ 2,85 e/ou R$ 1,85.
Também tem boi integrado, que para no matadouro:
Estação Joana Bezerra.

Tem até boi que fala:
Eu tenho vinte ano
To disimpregado, e to pidino
Que é mai bunito du que roba.
Sai de casa de sete da manhã e
To na rua até essa hora...
Minha gente aceito vale A & B,
25¢, 50¢... O que me deri ta bom,
Por que meus filhos num tem o que
Cumer em casa uma hora dessa...

— E desce na próxima parada já pronto
Para desferir o texto para a próxima boiada.

Tem boi que sobe armado e
Rouba os outros bois, esse é
O boi vilão, boy, que ganha a vida tirando
O couro dos outros.

E por fim tem os bezerros:
Esses pagam metade mas
Sofrem inteira a viagem.
E o carro de boi prossegue:
Caxangá para cá,
Caxangá para lá.

[14.05.2009]



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Contra quem?


OLEPARTNOC A

Contra? Contra quem?
Os pelos, os rios,
os ventos, o chão,
os rastros, os fios?

Contra? Contra quem?
A ordem, a lei,
toda exploração,
os nobres, o rei?

Contra? Contra quem?
O deus, o sistema,
a voz do patrão,
os signos, o lema?

Contra? Contra quem?
Os mesmos, os outros,
a cor, a exclusão,
os ‚ismos‛, os rótulos?

Contra? Contra quem?
A modernidade,
a luz, a razão,
o sim, a verdade?

Contra? Contra quem?
o som, a grafia,
a lâmina à mão,
a prosa, a poesia?


domingo, 16 de janeiro de 2011

OS TEIMOSOS & A POESIA DO CONTRA

Eu faço minhas as palavras do querido amigo e poeta Fred Caju. Eis o texto de apresentação e divulgação do e-book Os Teimosos & a Poesia do Contra (2010):

Porque poesia e teimosia andam lado a lado

Dar murro em ponta de faca, às vezes, não é burrice. É necessário. Não é porque vou esmurrar a lâmina que vou com punho nu. Aí sim, seria burrice. Aquele menino, como é mesmo o nome dele? Ah, Drummond! Drummond disse que um poeta desarmado é, mesmo um ser a mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos. Portanto, meus nobres, vim dar umas lapadas no facão com o meu arsenal saindo pelas orelhas.
E dessa vez vim muito bem acompanhado. Mercado da Boa Vista, Recife e catinga: palco que começou a ser montada essa aventura. Lubrificava as cordas vocais e devorava castanhas (apenas castanhas, ninguém comeu caju nenhum) na presença de Daniel Everson e Ane Montarroyos, quando surgiu as deliberações mínimas para se compor algo em conjunto chamado OS TEIMOSOS E A POESIA DO CONTRA. Uma pequena grande coletânea reunindo os poemas de nós três.
Saindo do característico odor recifense do Mercado, cada qual foi escrever suas teimosias. Everson, porém, foi à sua cidade-natal, Bezerros, e lá convidou Marcone Santos (Jimmy) para se integrar ao grupo. Ane e eu concordamos. Mas como já conhecia Jimmy, estabeleci uma condição/desafio: entregar algumas ilustrações junto aos poemas. OS TEIMOSOS E A POESIA DO CONTRA agora tinham quatro cabeças e ainda viria ilustrada.
D. Everson abre a coletânea com o sugestivo subtítulo: Cheguei e Não Importa!, explorando o cotidiano recifense (aliás, suburbano de terceiro mundo) juntamente com as suas divagações oníricas e sua constante preocupação com o exercício de ser poeta. Em um jogo psicodélico de poemas e narrativas, Marcone Santos apresenta o seu Labirinto Ocular à obra, com pinceladas de humor e surrealismo; Jimmy, como já foi dito, é responsável pelas ilustrações da coletânea: Vórtex da Teimosia I, II e III. A dama da teimosia, Ane Montarroyos, junta-se aos marmanjos para, literalmente, perfumar a coletânea com o ar da sua graça com a sua paráfrase drummondiana: No Meio do Caminho Tem uma Flor, a hora e a vez da delicadeza se fazer presente através de imagens florais. Eu, Fred Caju, sob um guarda-chuva chamado Fernando Pessoa apareço com a sessão Indesculpavelmente Sujo com o sabor típico dos cajus: doce e rançoso, buscando explorar as estruturas dos poemas e criar uma distribuição similar ao efeito do espelho.
Evidente que isso é apenas uma opinião, tudo que está supracitado pode ser desmentido e derrubado. Então fica o conselho: baixe a coletânea, leia, reflita, me desminta e me processe por propaganda enganosa. Vê que massa: você vai ler uma parada arretada e ainda pode extorquir dinheiro meu com o consentimento da justiça! Mas é bom tomar ciência que para quem golpeia uma peixeira por pura teimosia, dar uma mãozada na cara de um, não é tão difícil. Portanto, processe com classe.
Valeu pela atenção, é só clicar na imagem para baixar o e-book, e quem quiser conhecer mais o pessoal, basta visitar:



Cenário Invisívelhttp://cenarioinvisivel.blogspot.com/ (de Marcone Santos) 
Poetas de Martehttp://poetasdemarte.blogspot.com/ (de D. Everson e amigos) 
Cronisiashttp://cronisias.blogspot.com/ (de Fred Caju e amigos)
Sábados de Cajuhttp://fredcaju.blogspot.com/ (de Fred Caju)


Fred Caju

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Alma adormecida

o corpo está
acordado
mas a alma
dorme
e exausta
esquece 
de acordar
então
passa pela vida 
despercebida
como um menino 
admirando o luar

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Navegar é preciso: o Recife visto sobre as águas do Capibaribe

Centro do Recife

Shopping Paço Alfândega

Rua da Aurora

Ponte da Boa Vista, também conhecida como Ponte de Ferro

Teatro Santa Isabel

domingo, 12 de dezembro de 2010

Singela homenagem ao Rio Capibaribe

Queridos amigos e leitores, sei que estamos em dezembro, mas nunca é tarde para divulgar uma notícia boa, né? Até porque a poesia não sofre das mesmas intempéries que nós e, portanto, sempre estará por aí para ser suavemente degustada. Assim, de 16 a 21 de maio deste ano, no blog Cronisias, vocês encontram uma instigante overdose de poemas sobre o Capibaribe, intitulada Fluvialmente, Recife. A propósito, parabéns pela seleção dos textosCajuEntão, embora atrasada, decidi compartilhar a minha contribuição à coletânea publicada lá no Cronisias:

Meu querido Capibaribe

o fluxo de tuas águas
como olhos bem atentos
observa meus passos e deságua
em caminhos todo o meu tormento

tuas águas em fluxo
não conhecem fronteiras
alimentam o mar num influxo
ultrapassando qualquer barreira

o fluxo de tuas águas
vive alheio ao tempo
dia e noite reluz minhas mágoas
admirar-te alivia meu sofrimento

tuas águas em fluxo
adornam a arquitetura das pontes
mas nos momentos de refluxo
és imagem de dor a chorar nas fontes

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A beleza do samba





Samba da Bênção


É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ah, a primavera!



Spring is like a perhaps hand 
(which comes carefully 
out of Nowhere)arranging 
a window,into which people look(while 
people stare 
arranging and changing placing 
carefully there a strange 
thing and a known thing here)and 

changing everything carefully 

spring is like a perhaps 
Hand in a window 
(carefully to 
and from moving New and 
Old things,while 
people stare carefully 
moving a perhaps 
fraction of flower here placing 
an inch of air there)and 

without breaking anything.



A primavera é como uma talvez mão
(que vem cuidadosamente
de lugar Algum)arrumando
uma janela,pela qual pessoas olham(enquanto
pessoas observam
arrumando e mudando colocando
cuidadosamente ali uma coisa
estranha e aqui uma coisa conhecida)e

mudando tudo cuidadosamente

a primavera é como uma talvez
Mão em uma janela
(movendo cuidadosamente pra lá
e pra cá coisa Nova e
Velha,enquanto
pessoas observam cuidadosamente
movendo uma talvez
fração de flor aqui colocando
uma polegada de ar ali)e

sem quebrar coisa alguma.

(Tradução de Mauricio Cardozo)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Até breve!

Queridos amigos e leitores, por motivo de força maior, estou e continuarei ausente da blogosfera até o final do ano. Porém, continuo (eventualmente) no Twitter, onde faço alguns comentários e encontro informações, de maneira fácil e rápida, acerca do que acontece ao meu redor e no mundo. Portanto, até breve, queridíssimos! Beijos a todos. Deixo-lhes um forte abraço e um belo poema de Cecília Meireles

DESPEDIDA

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 

Quero solidão.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Samarone Lima

Diretamente do blog quemerospoemas, eis o belo poema do escritor e jornalista Samarone Lima:

MORTE

A morte nao é nada.

A vida que se perde
O amanha sem janelas
entre as sombras
os ferrolhos.

Com os olhos pasmos
sem aleluias
ao relento
digo teu nome.

A morte, como uma ressurreiçao
me espreita.

Pior que a morte
é a cicatriz.

Granada, 18.09.2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Salgado Maranhão

Salgado Maranhão é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito pessoal. "Sinergia" é a palavra que define sua poesia. Uma poesia de palavra, muito embora não ignore o real, pois o traduz em fonemas e aliterações. Que não hesita em ir além da lógica do discurso (ou do enlace com o plausível) se o resultado é o impacto vocabular e o inusitado da fala.
Ferreira Gullar


DELÍRICA III

Há um rasgo de arco-íris
entre meu cais
                  e a tua íris,
uma voragem de lâminas
e cetins.

Tramas tua química de azuis
em dorso esplêndido
rosnas a febre líquida
a inundar teus lábios ocultos.

O instinto fez-se mar revolto
e as convulsões de sangue e cio
acordam cavalos em teu haras.

Urge que o fogo avance os limites
urge que o tempo em temporal
desate a trama das águas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amor

The Time Of Relapse by Mark Lawrence

Já senti um amor transbordante que,
 muitas vezes, revive dentro 
de mim. Acho que ele 
esqueceu que 
transbordou 
até o 
fim.

Ane Montarroyos