domingo, 11 de setembro de 2011

Fernando Pessoa

HOJE QUE A TARDE É CALMA 
01.08.1931

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo, 
E a noite chega sem que eu saiba bem, 
Quero considerar-me e ver aquilo 
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo 
Que fui quem foi aquilo em torno meu, 
Salvo o que o vago e incógnito desejo 
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo 
Minha atenção sobre quem fui de mim, 
E nada de verdade em mim albergo 
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem, 
Segui por dois caminhos par a par 
Fui como o mundo, parte da paisagem; 
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço 
Que sou diverso no que informe estou. 
No meu próprio caminho me atravesso. 
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível, 
Vários trazidos de outros mundos, e 
No mesmo ponto espacial sensível 
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento 
Podendo conceber, bem pode ser, 
Um dilatado e múrmuro momento, 
De tempos-seres de quem sou o viver?