terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Caetano Veloso & Rita Lee


SAMPA

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa





HOMEM VINHO

Homem vinho
O tempo te lapida
Hoje ferida, amanhã cicatriz
Feliz de quem sabe cantar

Brindar sozinho
Tua fina estampa
De Sampa o mais completo tradutor
Poeta prestidigitador
Homem vinho

Voz de veludo Veloso tem
Tem dengo dengoso tem
Sangue de bamba
Pano pra manga

Fan Club na mídia tem
Tem ficha na polícia tem
Pecha de gênio
Dendê no milênio

Swing neguinha tem
Tem fora as asinhas tem
Karma de mestre
Cabra da peste
Leitmotiv como ninguém

O que é que Caetano tem?
Que nem todo baiano tem
Ele é o coringa e o rei
Meu eterno Dorian Gray