segunda-feira, 26 de outubro de 2009



às vezes o poema é como o nevoeiro da manhã
retarda-nos dentro de casa a triturar os sonhos
penetra-se nos ossos e na espinha
causa um calafrio intenso na boca
enquanto se não se põe de pé e se levanta
cega-nos com a fragilidade das palavras
mas faz música nas costuras do coração

Foto by Bekas: Nevoeiro da manhã - Coimbra
Texto: João Manuel Ribeiro


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ao amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Aniversário


amar é sofrer

eu vou lhe dizer
mas vou duvidar...
diz a velha canção
qualquer maneira de amor vale a pena
diz outra
de canção em canção a vida vai nos conduzindo ao início feliz de um final distante
bom...
feliz aniversário
a cada dia
parabéns
que a fé no que é/virá
seja o ontem no futuro melhorado

Moisés Neto

::precisão, delicadeza e sensibilidade... tais versos representam a leitura fiel de sentimentos, contraditoriamente, tão implícitos e explícitos em mim...
::


terça-feira, 13 de outubro de 2009

A bússola


[Viver é isto:
saber, pela razão,
a direção do norte
mas ir, pelo amor,
na direção do oeste].

Trecho de A BÚSSOLA: Daniel Lima


Luz



O porteiro afirma: a porta continua fechada

Mas eu vejo uma fresta de luz

Então, a luz diz: a porta está entreaberta...

ele esqueceu o limite entre realidade e ilusão

sombrio desejo de ofuscar meu brilho

Vontade de sentir?

Perdi a chave...

Porém, a luz insiste em brilhar

o brilho converte-se em chamas

o fogo arrebenta as janelas, a porta...

enfim, descobre o segredo

destrói a fechadura

ilumina o vazio

e renasce.


Love Locked Out by Anna Lea Merritt

Texto Ane Montarroyos


sábado, 10 de outubro de 2009

Inverno



No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar

Composição: Adriana Calcanhotto / Antonio Cicero

Girassol


Girassol:

gira flor
nasce sol
reluz jardim.



Foto e texto: Ane Montarroyos