quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Conceição Evaristo

"Sou mineira, filha dessa cidade, meu registro informa que nasci no dia 29 de novembro de 1946. Essa informação deve ter sido dada por minha mãe, Joana Josefina Evaristo, na hora de me registrar, por isso acredito ser verdadeira. Mãe, hoje com os seus 85 anos, nunca foi mulher de mentir. Deduzo ainda que ela tenha ido sozinha fazer o meu registro, portando algum documento da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Uma espécie de notificação indicando o nascimento de um bebê do sexo feminino e de cor parda, filho da senhora tal, que seria ela. Tive esse registro de nascimento comigo durante muito tempo. Impressionava-me desde pequena essa cor parda. Como seria essa tonalidade que me pertencia? Eu não atinava qual seria. Sabia sim, sempre soube que sou negra."

Mineira radicada no Rio de Janeiro desde 1973, Conceição Evaristo é graduada em Letras pela UFRJ, é Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e doutoranda em Letras (Literatura Comparada) pela UFF. Autora dos romances Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006), também publicou Poemas de recordação e outros movimentos (2008), além de contos e poemas na série Cadernos Negros.


Apesar das acontecências do banzo

Apesar das acontecências do banzo

há de nos restar a crença

na precisão de viver

e a sapiente leitura

das entre-falhas da linha-vida.


Apesar de ...

uma fé há de nos afiançar

de que, mesmo estando nós

entre rochas, não haverá pedra

a nos entupir o caminho.


Das acontecências do banzo

a pesar sobre nós,

há de nos aprumar a coragem.

Murros em ponta de faca (valem)

afiam os nossos desejos

neutralizando o corte da lâmina.


Das acontecências do banzo

brotará em nós o abraço a vida

e seguiremos nossas rotas

de sal e mel

por entre salmos, Axés e aleluias.