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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Albano Martins

















Como as espigas

Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-Ihes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.

sábado, 1 de maio de 2010

Silêncios

Mais cedo ou mais tarde
o silêncio virá
perguntar por ti.

(Com as flores do salgueiro)


Silêncio intacto

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insetos,
a linguagem perfumada das flores.

(Coração de bússola)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Capítulos...

Um dos capítulos

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.

domingo, 11 de abril de 2010

Pintura e Poesia

[1907-8]

O beijo, de Gustav Klimt

O beijo é só uma palavra
escolhida
ao acaso. O que as tintas
encobrem e descobrem
e os pincéis revelam,
mas não nomeiam, é a ordem
que se pressente
em todas as nebulosas. Que sempre
a ordem precede
a desordem. E essa
é uma das leis
indeclináveis
do amor. A sua regra
de ouro, que não admite
exceções.

sábado, 4 de abril de 2009

Jardim das Delícias Terrenas


Jardim das delícias, de Hieronimus Bosch


O que ali se chama

delícias é isto: a aliança

estritamente

carnal

entre homens

e animais: o casamento

duma criança

com um mocho, o vôo

soletrado

de algumas aves de bicos

alados e eretos

como o das mulheres

no cio. E olhos

e bocas

e coxas

circulando no dorso

e no sexo

das pombas.

Delícias

é o nome

que se dá

às lágrimas e às flores

do desejo.


Jardim das Delícias Terrenas by Hieronymus Bosch

Texto: Albano Martins