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segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cecília Meireles

Abstract Guitar by Paul Brent

GUITARRA

Punhal de prata já eras, 
punhal de prata! 
Nem foste tu que fizeste
a minha mão insensata. 

Vi-te brilhar entre as pedras, 
punhal de prata! 
No cabo flores abertas, 
no gume, a medida exata, 

exata, a medida certa, 
punhal de prata, 
para atravessar-me o peito 
com uma letra e uma data. 

A maior pena que eu tenho, 
punhal de prata, 
não é de me ver morrendo, 
mas de saber quem me mata.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Dia Nacional da Poesia

Olá, queridos! Eu não abandonei o blog, juro! Mas a minha rotina mudou completamente e, por isso, além do tempo, a inspiração também criou asas. Desculpem a ausência! Tentarei voltar ao ritmo anterior. :) E hoje, especialmente, a poesia me chama. Salve o Dia Nacional da Poesia!


Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.



Cecília Meireles

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Até breve!

Queridos amigos e leitores, por motivo de força maior, estou e continuarei ausente da blogosfera até o final do ano. Porém, continuo (eventualmente) no Twitter, onde faço alguns comentários e encontro informações, de maneira fácil e rápida, acerca do que acontece ao meu redor e no mundo. Portanto, até breve, queridíssimos! Beijos a todos. Deixo-lhes um forte abraço e um belo poema de Cecília Meireles: 

DESPEDIDA

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 

Quero solidão.

domingo, 11 de julho de 2010

O planeta, o jardim e a borboleta


No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta.
E no planeta um jardim
e no jardim um canteiro
no canteiro uma violeta
e sobre ela o dia inteiro entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O vôo das palavras

Vôo

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicores,
as palavras voam.
Bando azul de andorinhas,
bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas.
Como escuros morcegos
como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós
as palavras voam.

E às vezes pousam.

Cecília Meireles

sábado, 17 de abril de 2010

Aqui, é primavera sempre...


Primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

sexta-feira, 3 de abril de 2009


Certamente não há mais nada de ti, sobre o horizonte
Desde que ficaste ausente...
Mas é isso o que me mata:
Saber que estás longe, mas sempre na minha frente.

Emptiness is Setting in Her Eyes by Shawn Jacobs
Texto: Cecília Meireles