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domingo, 24 de janeiro de 2010

Saudade


Em visita recente ao blog Acontecimentos, de Antonio Cicero, descobri o seguinte poema, de Drummond, cujos versos dedico à memória de Vilma Maria Montarroyos Santos (1937-2005), minha mãe-avó; hoje seria seu 73º aniversário: 


CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesma envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a tua menina, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou viva, e que não sonho.


Carlos Drummond de Andrade
"[...] Simplesmente, não me habituei a ver morrer."


Albert Camus