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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Les Fleurs du Mal

LE SOLEIL

Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures
Les persiennes, abri des secrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés
Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,
Je vais m'exercer seul à ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trébuchant sur les mots comme sur les pavés
Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.

Ce père nourricier, ennemi des chloroses,
Eveille dans les champs les vers comme les roses;
II fait s'évaporer les soucis vers le ciel,
Et remplit les cerveaux et les ruches le miel.
C'est lui qui rajeunit les porteurs de béquilles
Et les rend gais et doux comme des jeunes filles,
Et commande aux moissons de croître et de mûrir
Dans le coeur immortel qui toujours veut fleurir!

Quand, ainsi qu'un poète, il descend dans les villes,
II ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s'introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.

— Charles Baudelaire


THE SUN

Along the outskirts where, close-sheltering
Hid lusts, dilapidated shutters swing,
When the sun strikes, redoubling waves of heat
On town, and field, and roof, and dusty street —
I prowl to air my prowess and kill time,
Stalking, in likely nooks, the odds of rhyme,
Tripping on words like cobbles as I go
And bumping into lines dreamed long ago.

This all-providing Sire, foe to chloroses,
Wakes verses in the fields as well as roses
Evaporates one's cares into the breeze,
Filling with honey brains and hives of bees,
Rejuvenating those who go on crutches
And bringing youthful joy to all he touches,
Life to those precious harvests he imparts
That grow and ripen in our deathless hearts.

Poet-like, through the town he seems to smile
Ennobling fate for all that is most vile;
And king-like, without servants or display,
Through hospitals and mansions makes his way.

— Roy Campbell, Poems of Baudelaire (New York: Pantheon Books, 1952)

 O SOL

Ao longo dos subúrbios em que, pelas mansardas,
Persianas fazem véu às luxúrias bastardas,
Quando o sol arroja, imponente, seus punhais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Eu me ponho a treinar em minha estranha esgrima,
Farejando por tudo os acasos da rima,
Numa frase a tombar como sobre as calçadas,
Ou topando as imagens há muito já sonhadas,

Este pai generoso, a odiar sempre o que enferme,
Pelo campo acorda a rosa como o verme;
Faz as mágoas voar de que as almas são cheias,
Ocupando o pensamento ao encher das colmeias.

Ele é quem dá o alento aos que vêm de muletas,
Dando-lhes um frescor de jóias ou violetas,
Para ordenar depois que amadureça a messe
No coração eterno, o que sempre floresce!

E quando vai à rua, à maneira de um poeta,
Ele sabe aureolar a coisa mais abjeta,
Sozinho e sem rumor, como um rei se introduz
Nos hospitais da mágoa e nas mansões da luz!

— Pietro Nassetti, As Flores do Mal (São Paulo: Martin Claret, 2007)

domingo, 15 de agosto de 2010

O Relógio de Baudelaire

O RELÓGIO

Relógio! deus sinistro, assustador, indiferente,
E cujo dedo ameaça a nos dizer: Recorda!
A vibradora Dor, que, no medo transborda,
Em teu coração irá se encravar brevemente;

O Prazer é uma bruma a buscar a amplidão
Tal sílfide que morre além da onda mais fria;
Cada instante destrói um pouco da alegria
Que a cada homem se deu para toda a estação.

Por hora mais de três mil vezes, o Segundo
Murmura: Lembra então! Com sua voz sonora
De inseto, Agora diz: Olha que eu sou Outrora,
Bombeou a minha tromba a tua vida, ó imundo!

Remember! Lembra então! Esto memor! em coro
(Não ignora um idioma a goela de metal)
O minuto é uma ganga, ó frívolo mortal,
De que não deixarás de extrair todo o ouro!

Lembra então que este Tempo é um jogador atento
Numa lei de ganhar, perene e sem trapaça.
Lembra então como a noite aumenta e o dia passa,
A clepsidra é vazia; o abismo está sedento.

Mas o divino Acaso, ou bem cedo ou mais tarde,
Ou a Virtude augusta, esposa virginal,
Ou o próprio Remorso (Oh! o abrigo final!)
Ou tudo te dirá: "Morre, é noite, covarde!"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Vinho, poesia ou virtude?



É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.


Mas de quê?
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos;embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.